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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Morte e Vida

Suzana olha a foto do filho. Como de costume, nas noites em que não tem sono, ela senta no sofá da sala e chora, abraçada a uma das únicas lembranças que sobraram do seu doce pequeno, tudo isso regado a uma xicara de chá.

Os acontecimentos daquela noite lhe vem a mente de forma clara, em lembranças, em sonhos, como se fossem hoje. A porta de casa, a criança ferida, os gritos que ecoavam por toda a rua sem ter nenhuma resposta. Mesmo sem sentir a respiração do menino, mesmo sem sentir seu coração bater, mesmo se sentindo impotente, ela o carrega no colo em um choro inconsolável. Alguns vizinhos vão ao seu amparo mas já é tarde.

Muito tarde. Ela acorda assustada no sofá com o sol alto batendo no seu rosto. O retrato apertado contra o peito deixa marcas no seu corpo, mas nada comparado as marcas que há no coração. Na mesa de centro pousa um papel rabiscado. É um recado do marido. Não queria acordá-la e deixou ali escrito que chegaria mais tarde, "como naquela noite" pensou ela. "Não, esqueça isso. Não foi culpa dele." 

O sentimento de culpa lhe aperta o peito. Raiva e angustia se misturam ao desejo de nunca perder os entes queridos. Mas quando é que perdemos aqueles que amamos? A presença fisica é extremamente necessária para que possamos ser felizes por completo? Perder e ganhar faz parte do dia-a-dia. Todos são importantes, todavia, não podem e nem devem ser indispensáveis, tendo em vista que a morte é algo inevitável nas condições humanas. O exterior é essencial mas o que realmente importa está dentro de nós.

 Os corredores daquele orfanato fugia um pouco da precariedade em que se encontra as instiuições públicas atualmente. Apesar da infraestrutura decadente, seus funcionários se uniam em um esforço raramente visto, tentando proporcionar as crianças que ali viviam um ambiente mais aprazível. Suzana relutou um pouco quando Lúcia, uma das monitoras, lhe convidou para fazer parte do voluntariado. Seu psiquiatra, com quem já fazia terapia há quase um ano, gostou da idéia e imaginou que lhe faria bem. Por fim aceitou o convite há alguns dias e disponibilizava dez horas por semana para executar tarefas e serviços dos quais o orfanato necessitava. Geralmente, ela se atinha a algo em que pudesse trabalhar sozinha, perdida em seus pensamentos. Suzana estava em direção ao orfanato e nem imaginava que naquele dia ela teria que participar de uma tarefa diferente.

- Boa tarde Suzana! Como vai?
- Boa tarde Lúcia, estou bem e você?
- Me sinto ótima! Pronta para o serviço? Preciso que faça algo diferente hoje. Pode ser?
- Algo diferente? Como assim?
- Sabe a Vera? Que conta história para as crianças? Não veio hoje e eu preciso que você fique no lugar dela.
- Lúcia... Eu não sei se eu posso sabe? Por que não fica você mesma no lugar dela? Não seria melhor?
- Claro que você pode! Mas só estou te pedindo um favor. Você não precisa aceitar. Mas gostaria muito que fizesse isso.

"Meu Deus", pensa Suzana. "Ver todas aquelas crianças... Eu não vou suportar." Lúcia pousa a mão suavemente em seu ombro:

- Eles precisam de você tanto quanto ele precisava.

Ela fita seriamente a face serena de Lúcia, enquanto um filme passa na sua mente. Tudo o que aconteceu, dor, sofrimento, meses de terapia. "O mundo acabou? Não, talvez uma parte de mim que jamais ressucitará. Entretanto, há algo vivo. Ainda existe vida dentro de mim, ainda existem pessoas contando com essa vida. Não posso abandoná-los. O brilho dos seus olhos continuaram dentro de mim, mas é hora de me despedir. Eu te amo muito meu doce pequeno". 

Suzana sorri e abraça Lúcia longamente. Após, se dirige a sala onde as crianças esperam ansiosas o começo de uma nova história.

Thiago Carvalho - 15/06/2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tarde de Outono

Uma tarde de outono. O vento sopra frio arrastando as folhas secas que cobrem o chão. O sol aparece intercalado entre as nuvens que anunciam a chuva que está por vir. No banco está Eduardo, abatido, segura uma rosa na mão. Levou tanto tempo para ele levar aquela rosa onde queria e no fim, não deu em nada. Alice, que acabara de sair da aula, percebe a tristeza do amigo.

- Oi Edu! Tá tudo bem?
- Tá... tá tudo bem sim...
- Olha, acho que não hein? Que carinha é essa?
- Poxa Alice, é a única que eu tenho. Se tivesse outra não usava essa.
- Eita! Pega a corda que o cavalo tá solto!

Dizendo isso, Alice cai na risada! O amigo não se contém e esboça um sorriso no rosto. Aproveitando o quebra gelo ela continua:

- Agora sim, está melhorando. Quer me contar o que aconteceu? E essa rosa ai?
- Ah, você não vai querer saber. E essa rosa foi a pior bobagem que fiz na minha vida.
- Claro que quero saber, se estou perguntando é porque me interessa! Que bobagem é essa?

Eduardo fica meio contrariado, tenta fugir do assunto, mas a amiga insiste em saber o que está acontecendo. Porque estava ali cabisbaixo, segurando aquela bela rosa aberta. Até que ele resolve falar:

- Sabe a Carol?
- Deixa eu ver... Aquela que senta do nosso lado na aula de matemática?
- Essa mesma!
- Ah entendi, seu safadinho! Você vai entregar essa rosa pra ela! Bem que eu notei os suspiros que o senhor tinha quando ela chegava!

Ele fica ruborizado, mas os olhos continuam vagando, tristes. A menina fica pensativa, ainda não consegue entender a aflição do seu amigo.

- Mas o que há? Por que estás aqui? Não vai lá falar com ela?
- Pois é... Eu já fui... E quer saber? Não foi legal.
- Ah vá! Por isso que você tá assim? Porque ela te deu um fora? Ah fala sério né Edu! Ela nem é lá essas coisas...
- Não é só isso. Ela desprezou a minha rosa. Caramba, ela não precisava ficar comigo, mas eu escolhi essa rosa com tanto carinho. Fiquei um tempão pra achar essa, perfeita, pra ela dizer que não podia aceitar.

Alice está pensativa. Vê a expressão frustrada do amigo e entende o quanto ele estava chateado, pois não foi só um fora. Ele teve todo o seu empenho desprezado de uma forma que não esperava. Eduardo prossegue no seu desabafo:

- Ela podia ao menos ter aceitado o presente, mesmo que botasse fogo depois. Um pouco de consideração é bom também.
- Sim, eu entendo. Mas vê só, você fez a sua parte. Infelizmente tem pessoas que não dão valor ao que a gente sente. Precisamos erguer a cabeça e seguir adiante. Ninguém tem uma placa na cabeça dizendo: "Sou insensível" ou "Sou egocêntrico". Só vamos saber tentando.
- É, tem razão. Sabe de uma coisa Alice? A melhor coisa que fiz hoje foi ter ido falar com ela, se não a gente não teria se encontrado hoje!

Eles caem na risada! Resolvem levantar daquele banco e ir embora. Eduardo pega a rosa na mão:

- Querida amiga, eu deveria dar esse presente a você.

Em um gesto sutil, ele atira a rosa ao chão e pisa em cima, deixando-a em frangalhos.

- Olha ai o que você fez! Destruiu a pobre flor!
- Eu não! A Carol fez isso. Eu só transformei em gesto o que ela já tinha feito com palavras. Essa já era. Você merece uma rosa bem mais bonita!

Ela sorri. Depois de um abraço eles seguem para casa.

Thiago Carvalho - 07/01/2011

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Desafio

Ângela estava ansiosa. Apesar de já avançada idade nunca tinha viajado de avião. Suas pernas tremeram ao ver de longe aquela máquina sinistra, talvez a coisa mais pesada que vira ao longo da vida. Era difícil acreditar que aquele monstro metálico fosse alçar voô levando tantas pessoas consigo.

Estava na porta de embarque. Muita gente ia sendo engolida pela bizarra criatura gigante que iria levá-la ao encontro de sua irmã mais rápido do que jamais imaginara. As mãos suavam, ela tentava manter a calma como podia. Em pensar que por terra levaria horas para chegar a sua cidade natal e dentro daquele monstro não demoraria mais de uma hora.

Passou pelo túnel, chegou a porta da aeronave. O comissário lhe recepcionou sorridente. Uma aeromoça ofereceu ajuda para guia-la até o seu assento. Ela agradeceu. Estava receosa, bastante aflita. Se sentia uma criança prestes a entrar numa nova escola. A diferença é que agora ela não possuia mais a vitalidade da infância. Correu os olhos pelo corredor, olhou a janela, a coisa começava a se movimentar. Era tarde para desistências.

O coração acelerava cada vez mais. Quem diria chegar nesse momento da vida e ainda encontrar desafios a superar. Para ela nunca tinha sido problema encarar a estrada, viajar por horas. Se sentia bem na viagem, era quase uma terapia. Todavia, nesse ano, ela queria enfrentar esse medo. Só chega ao céu quem se dispõe a voar.

A máquina toca o solo e alguns solavancos depois ela para. O piloto taxia o avião com maestria, levando-o ao terminal de desembarque. Ângela agradece a todos pela excelente viagem. Depois, já no saguão, ela fita a grande aeronave que a trouxe até aquele lugar e até aquele estado de espirito. Sim, aquele estado de extâse que só sentimos quando superamos um grande obstáculo. Mesmo sem a força da juventude, ela estava se adaptando a nova escola.

Thiago Carvalho - 31/12/2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Noite Feliz (Pequenos Passos )

Pela manhã Antônio tinha passado por uma experiência marcante com aquela garotinha. Viu um gesto de amor que imaginava não mais existir no mundo. Ele estava agora na frente da pequena escola a qual tinha visto as garotas entrarem com pressa. Depois de seguidas conversas com professores ele conseguiu descobrir o endereço daquelas crianças. Encontrou naquele lugar uma pequena casa humilde, porém acolhedora. Apesar das poucas condições, dona Ester era muito zelosa com o mínimo que possuia.

Passaram-se os meses e com eles a situação da familia começou a melhorar. Com a ajuda daquele senhor, o marido de dona Ester conseguiu um emprego e a prosperidade finalmente sorriu para eles. Agora as meninas sempre tomavam café da manhã antes de ir para escola e cumprimentavam seu Antônio, aquele que aceitou a missão de cooperar com aquelas pessoas. E assim, foram se aproximando as festas de fim de ano.

O parque de diversões é um lugar de alegria para a maioria das crianças. Não era o caso de Aninha, a irmã mais nova, pelo menos naquele momento. Até então ela estava se divertindo, fazia tempo que não sentia o prazer de poder brincar naquelas maravilhas eletrônicas. O bondoso senhor concedeu a sua mãe algumas cortesias para que ela pudesse fazer aquele passeio. A irmã de Aninha, Maria, teve que ficar em casa pois foi acometida de um forte resfriado e João, seu pai, ficou cuidando dela.

Enquanto mãe e filha voltavam para casa, um homem vestido de papai noel anunciou o assalto. Dona Ester pedia calma, tentando explicar que não tinha nada. No desespero o ladrão lhe acerta um tiro no peito e sai em disparada deixando a pequena Aninha aflita diante de tal cena. O desespero toma conta da menina, lágrimas rolam do seu rosto. Ainda à tempo de ouvir sua mãe dizer: "Tenha fé minha filha". Ela se agarra a mulher baleada e pede com toda a fé que seu coração possui. Milagrosamente uma ambulância passa naquela rua e resgata a senhora já quase sem vida.

Cirurgia, horas de aflição. Outro milagre. A bala passou a poucos centímetros do coração daquela mulher, como se alguma força tivesse mudado sua trajetória. Depois de quase uma eternidade vem a boa notícia; Ela está fora de perigo. Alivio, comemoração. Aninha se ajoelha, reza emocionada. Diz baixinho "Obrigado Jesus. Obrigado por me dar o melhor presente de natal da minha vida."

Thiago Carvalho - 24/12/2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pequenos Passos

Iniciava-se mais um dia nessa cidade, outrora silenciosa. O torpor da noite é rompido com o barulho nervoso de motores, passos e vozes incessantes. O amanhecer lentamente vai tomando sua forma, os primeiros raios de sol iluminando os pontos mais altos, cabeças agitadas, cafeinadas, na busca do intangível no tangível.

Na calçada, duas pequeninas estão fardadas para o primeiro dia de aula. A maior segura a mão da menor. Elas seguem passos firmes, cruzando cada rua como se estivessem passando por rios infestados de piranhas e jacarés. A barriga ronca. O dinheiro do papai não foi suficiente para trazer pão no dia anterior. Ainda assim a mãe as arrumou com muito amor e deu a Deus a missão de levá-las e trazê-las em segurança.

Esperança. A menina mais velha vê os brilhantes olhos da pequenina em direção a um pastel que está na vitrine. Ela olha as moedas na sua mão. Não era o suficiente. Sua mãe lhe dissera antes de partir, "tenha fé filha." A pequena estudante se aproxima do balcão e pergunta:

- Moço, o que posso comprar com essas moedas?
- Ih garota! Isso mal paga a margarina do pão!

O dono da lancheria tenta afastá-las, mas um senhor que estava a observar, enquanto tomava o seu café, o interrompe:

- Deixe-a por favor. Olá querida! Deseja algo?
- Não senhor. Eu só queria comprar alguma coisa pra minha irmã. Mas só tenho isso.

Ele pede então ao balconista que lhe prepare dois grandes sanduiches. Ela
agradece,disse que sua mãe havia pedido que tivesse fé. O homem sorri e as
vê partir. Em seguida seenche de fúria quando nota que a mais velha deu
apenas
um pequeno pedaço para menor. Corre em sua direção e segura o
braço da menina:


- Garota má! Acreditei em você e agora está judiando da sua irmã, lhe dando só um pouco do grande lanche que tens para ficar com todo o restante?

Assustada, ela encara o homem e com os olhos marejados responde:

- Não senhor! Não vou comer! Apenas dei a ela o suficiente, por enquanto! Quero levar pra casa, pois minha mãe e meu pai também devem estar com muita fome.

Ele fica sem ação. Sente o braço da menina deslizar da sua mão e enquanto está pensativo, ela some em direção a escola. "Como pode aquela coisinha tão pequena com o coração tão nobre? Mesmo faminta, não esqueceu daqueles que dividem com ela essa dor." Ele queria fazer algo mais por aquela familia, mas isso é uma outra história.


Thiago Carvalho - 17/12/2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Humildade

Aquele homem caminhava no deserto fazia algum tempo. Não se sabe ao certo quanto tempo. Suas roupas já se deterioravam pelo trajeto e seus pés contavam inúmeras bolhas. Ele poderia estar fora daquele lugar, porém, se julgava forte o suficiente para sair dali sozinho. O sol era escaldante, a areia fervia como centelhas de brasa passeando sobre a superfície lisa das dunas.

O calor era insuportável. A garganta seca clamava, implorava por um gole de água. Na sua direção vinha um bando de homens montados em cavalos, sedentos por sangue e dinheiro. Eles percebem naquele moribundo alguém quase sem expectativa. Resolvem que não vale a pena perder tempo ali e seguem em frente. Um deles, antes de ir, atira para o peregrino uma pequena cuia, onde ainda tem um pouco de água. Ele desdenha da atitude do ladrão:

- Não preciso de esmolas.

As pernas já não suportam mais o peso do corpo. Garante para si mesmo que encontrará água sozinho, sem ajuda de ninguém. Um velhinho, montado num camelo, aparece entre as dunas. Se compadece daquela figura tão queimada e maltratada pelo sol. Ele lhe pergunta:

- Algum problema amigo?
- Não sou seu amigo. Problemas são para os fracos. Só estou em um momento difícil.
- Talvez eu possa lhe ajudar. Tenho um pouco de água e comida aqui.
- Já disse que não preciso. Não o conheço. Deixe-me seguir em frente e não me importune.

O andarilho segue seu trilho cada vez mais exausto. Mais um dia está acabando e ele se pergunta se continuará vivo para seguir adiante. Pouco importa também, se não conseguir sobreviver é porque não merecia viver. Não foi forte o suficiente. Entre delírios, começa a cavar o solo em busca de tesouros hidricos, motores, transporte para casa. O corpo não resiste e apaga.

Ele vai acordando aos poucos, se recordando dos detalhes anteriores. Parecia que estava tendo um terrível pesadelo. Percebe que está numa barraca feita de tecidos, erguida com varas. Ele vê o velhinho o qual tinha lhe oferecido ajuda antes.

- O que estou fazendo aqui?
- Eu o trouxe. Encontrei-o desmaiado a poucos metros do local do nosso primeiro encontro. Sua boca estava seca. Vi que estava bem desidratado. Deve estar caminhando a dias!
- Não é da sua conta. Porque veio atrás de mim, se eu disse que não precisava de ajuda?
- Porque não acreditei na sua voz. Há certos momentos em que precisamos ver além do que as palavras dizem.
- Pode me ajudar a voltar para casa?
- Claro! Está disposto a receber ajuda?


Thiago Carvalho - 10/12/2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Educação

Era uma vez uma vaquinha chamada Esmeralda. Ela vivia muito feliz porque podia brincar, correr e se divertir o dia inteiro. Comia o pasto verdinho na hora que quisesse. Gostava de olhar as nuvens, imaginando as comidinhas gostosas que elas pareciam. "Aquela parece um algodão doce, essa outra é pudim e essa aqui... Parece o boi da cara preta... De repente Esmeralda se molhava toda com a chuva que caia.

Um dia seus amiguinhos conversavam. Era um trá-lá-lá que ninguém conseguia entender o que do quê. O coelho estava triste e Esmeralda perguntou:
- O que aconteceu coelho?
- É o capataz novo que chegou querendo organizar tudo! Ele não quer ver mais nenhum bicho solto por ai.
- Mas a gente passa os dias livre. Por que temos que ficar presos agora?
- Eu não sei. Disse que a partir de hoje é ele quem manda aqui.

O capataz era um cachorro grande, que andava sobre as duas patas traseiras e usava um grande chicote. Mas a Esmeralda não levou aquilo muito a sério, afinal, ela só era uma vaquinha. Voltou a brincar com as borboletas que passavam. Estava ali distraída quando sente uma chicotada lhe acertar as costas. Ela escuta vários gritos é puxada e colocada no celeiro. Triste, chorou. Não entendia o que tinha acontecido. Ela só estava brincando.

Passaram-se os dias. Os bichinhos andavam temerosos, cuidavam cada passo, pois não sabiam bem o que fazer, só sabiam que deveriam ficar calados caso contrário, se o capataz não gostasse, eles poderiam sofrer as consequências. Era muito chato e entediante. "Esse cachorro é louco ou o que?!" Questionava dona galinha, arrodeada de pintinhos.

O capataz passou pelo celeiro, orgulhoso da sua eficiência, pois todos estavam quietinhos lá dentro. Seu chicote era mesmo maravilhoso. Mas ainda não estava satisfeito. Os animais ainda saiam da linha, principalmente quando ele não estava por perto. Resolveu racionar a comida. Só comeria quem se comportasse bem o dia inteiro.

Um dia o chicote sumiu. o capataz estava nervoso, pois como que o respeitariam agora? O que ele iria fazer? Resolveu conversar com os moradores do celeiro. Mesmo irritado, respondia as perguntas dos bichinhos falando o porque de fazer isso ou não fazer aquilo. Então ele percebeu o quanto estava sendo bobo castigando aquelas criaturinhas pois, com o tempo, eles foram entendendo que não podiam ficar soltos sempre e que cada coisa deveria ficar no seu lugar.

O capataz esqueceu completamente o chicote. Achava que sabia tudo e aprendeu que respeito não se impõe, se conquista. A vaquinha Esmeralda sabia que tinha hora pra brincar e pra voltar ao celeiro. Agora ele andava satisfeito vendo que todos estavam felizes. Antes de forma autoritária o capataz conseguiu adestrá-los. Mas conversando, ele conseguiu educá-los e viu que era melhor assim.

Thiago Carvalho - 26/11/2010

*Agradeço aos blogs http://caixinhadaadri.blogspot.com/; http://desconstruindoamae.blogspot.com/; e a todos que aderiram a campanha "Não a violência infantil". Foi dos seus posts que concebi a idéia desse texto. Obrigada!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Perdão

Ele saiu sem dizer mais nada. lágrimas rolavam, estava acabado. Cada um viveria sua vida agora. Tudo que construíram, até então, seguiriam do seu jeito. Sonhos, planos, promessas... Nada importava. Não, o amor não acabou. Certamente nunca existiu. Sabe aquelas fagulhas no coração, aquele estado de êxtase que leva a insanidade e procuramos palavras forte, pura, para intensificar o sentimento? Mas com o amor não existe meio termo. Ou é ou não é.

No colo a criança dorme. As mãos cerrada em punho, parece que já sente a insegurança que faz a falta da figura paterna. A mãe lhe olha com ternura, beija sua testa e sussurra baixinho: "Agora somos eu e você. Nunca vou te abandonar, é uma promessa..." Comovida, ela a abraça mais forte e as gotas caem de seus olhos em maior quantidade.

Ele nunca mais voltou. Nem um telefonema, notícias, nada. A dor da alma, abandonadas, como se fossem objetos sem mais utilidade, largadas a própria sorte. Todavia é preciso seguir em frente. O mundo não espera sua recomposição. Ela sofre, exausta, sobrecarregada. E ai descobre que um sorriso, mesmo sem a metade dos dentes, é revigorante. "Nunca vou te abandonar." A vida se abre em um leque de novidades, porém, foi necessário enxugar as lágrimas e se dispor a abrir o leque.

O parquinho. Depois de duras batalhas é hora de construir um pouco de felicidade. A menina dos olhos brinca, numa euforia de dar gosto. Ela assiste satisfeita, contente. Ele volta. Os sentimentos se misturam em um turbilhão de prazer e ódio. O desprezo, o coração em pedaços. Foi muito difícil. "Vai embora", diz ela. Lágrimas rolam no rosto do homem. Seu ego machucado, toda sua vida machucada. "Vocês não mereciam, eu errei, fui um tolo. Me perdoa."

O balanço vazio. Um filme na mente. A criança em pé curiosa. Ele a olha, sorridente. O sorriso é sincero. Ela foca nele. É o mesmo, apesar de abatido continua o mesmo. Foi cruel, ele deve ter tido seus motivos, mesquinhos, porém são seus motivos. Ela pondera: "Não posso condená-lo como fiz antes. Não posso carregar esse peso comigo. Já recuperei minha vida agora. Levar essa mágoa no coração não será mais do que um estorvo. Está perdoado."

Felicidade completa. A criança agora tem pai e mãe. Ele a abraça forte: "vamos ser uma familia novamente". Ela a pega pela mão, é hora de ir embora. "O papai não vai com a gente?" A mãe explica: "Papai decidiu morar sozinho. Ele vai voltar pra casa dele e vai te ver outra hora." Ele está confuso. Ela continua: "O fato de perdoá-lo não quer dizer que nada aconteceu. Ganhou sua segunda chance, mas há um enorme abismo entre o perdão e a confiança. Você só deu o primeiro passo.

Mãe e filha se vão e ele está no parque, abandonado.


Thiago Carvalho - 19/11/2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Responsabilidade

A noite estava bela. Era uma daquelas noites de verão em que tudo que se deseja é uma brisa pra refrescar um pouco o ambiente. Passava um pouco das nove e ainda era possível ver o alaranjado do crepúsculo no horizonte. O dia havia acabado mas a noite estava apenas começando.

Enquanto alguns se preparam para sair, se divertir, dormir ou não, José, mais conhecido na rua como o Seu Zefinha, já tinha seu fogo aceso e estava vendendo seus churrasquinhos como acontecia todas as noites, fosse o tempo que fosse. Em dias de chuva o transtorno era terrível, mas José não desapontava sua clientela e sempre dava um jeito de poder trabalhar nas mais adversas situações.


As pessoas o adoravam, além do seu aperitivo ser o melhor das redondezas, ele era admirado pela sua simpatia e boa vontade em servir seus clientes. Mesmo já sendo um senhor aposentado se negava a ficar em casa esquentando o sofá. Dizia que "O trabalho é o que enobrece o homem". Com os filhos já criados, sua única companhia de todas as horas era dona Margarida, sua esposa, uma senhora meiga que ajudava no preparo dos espetinhos. Na noite o trabalho de Seu Zefinha era assá-los e comercializá-los.


O movimento na praça havia cessado. O relógio marcava uma da manhã e José guardava seus instrumentos de trabalho no carro. Ele fecha o porta malas e enquanto faz a volta para entrar no carro, é surpreendido por um outro carro em alta velocidade. O impacto é fulminante e mata seu Zefinha na hora. O motorista, embriagado, também não resiste ao acidente e morre. O marido de dona Margarida é recebido no céu com grande festa, enquanto o imprudente é encaminhado ao inferno.


O motorista se questiona, reclama: "Que Deus é esse que condena as pessoas? Ele tem prazer em ver tortura e sofrimento? Tudo bem que eu errei, mas terei que pagar a eternidade inteira por isso?" O anjo que o encaminha o fita sério e responde aos seus questionamentos: "O que aconteceu não foi castigo. Deus lhe deu o livre arbitrio, o direito de trilhar o seu caminho e você decidiu trilhá-lo até chegar aqui. O que acontece hoje são consequências dos seus atos. Não responsabilize ninguém pela sua vida. O único responsável por ela é você".


Thiago Carvalho - 12/11/2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Contos de viagem

Era pra ser uma viagem qualquer não fosse pela insistência daquele cara em puxar conversa. Não sei porque tanta vontade de falar comigo mesmo vendo que eu não estava nem um pouco interessado no papo. O relógio já marcava meio-dia, aquele ônibus estrada afora parecia que não chegaria nunca e o estômago implorava por alguma comida urgentemente.
O restaurante era precário mas estávamos sem opção. Luzes queimadas, piso quebrado, uma garçonete sem a menor vontade de servir e aquela maldita voz do meu colega de viagem que resolveu que eramos grandes amigos e estava até então tentando me convencer disso. Como se eu tivesse lá grande curiosidade em saber quem foi o campeão do último torneio de counter strike.

As moscas na mesa tiravam no par ou ímpar pra ver quem ia no prato mais bonito, até porque a quantidade de moscas era infinitamente maior que a de comida. Eu estava sentado a mesa com uma garrafa de refrigerante e um salgadinho, que foram as coisas mais decentes que consegui encontrar naquela espelunca e o meu novo melhor amigo, mesmo com a boca cheia de presunto, não parava de tagarelar sobre a vida das lagartas de Madagascar. Eu já estava desejando que ele morresse entalado com aquele sanduíche.

Parece que Deus, ou não, enfim, alguém ouviu minhas preces porque de repente a criatura começou a mudar de cor e a respiração cada vez mais ofegante. Fiquei apavorado, tudo esparramado sobre a mesa e aquele homem partindo dessa para melhor. E agora? Agora que eu mais precisava ouvir a voz dele não saia uma unica palavra daquela boca desgraçada. A garçonete viu o estado do infeliz e mandou encomendar as velas do caixão. Tudo pronto para o velório quando percebi que ele estava engasgado. Mas pudera falando mais que a lingua tinha mais era que morrer pela boca mesmo.

Tentei levanta-lo da cadeira com algum sacrifício, agarrei-o por trás e comecei a pressionar meus pulsos contra o seu diafragma, o homem enorme, a cena era mais ou menos como a de um macaco pai levando seu filhinho nas costas. Enquanto eu apertava abaixo do seu torax a garçonete veio a suas costas e lhe deu duas bofetadas vigorosas, como se estivesse batendo no namorado canalha. As batidas associadas ao aperto foram suficientes para que um grande pedaço de presunto e queijo, já embebido em sangue, saltasse da sua boca. O cara caiu exausto na cadeira e eu me sentia como se tivesse carregado toneladas por quilômetros a fio. A moça do bar lhe trouxe um copo d'agua enquanto todos olhavam atônitos a cena, num misto de espanto e alivio.

A viagem continuou, dessa vez mais sossegada, mas não sei porque meu grande amigo não quis mais conversar. Talvez ficou muito cansado depois do último ocorrido e agora dorme como uma criança depois de um dia agitado. Bom, ver a morte de perto deve ter feito ele pensar que se tem dois ouvidos e uma boca é pra ouvir mais e falar menos.

Thiago Carvalho - 05/11/2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Coragem

Já passava das duas da manhã e o Rodolfo não terminava aquele whisky. Viu uma garota quando chegou e decidiu que tomaria uma dose e ia "chegar chegando". Era meia-noite quando ele se achou o cara. A menina já tinha olhado-o várias vezes, quando ele resolvia que era a hora, chegava alguém antes.

A noite estava acabando, a ansiedade era insuportável, mas ele não conseguia. Talvez o copo estava muito pesado e ele não dava conta de carregá-lo. Pensou em deixar em cima da mesa mas assim o garoto teria que tomar uma atitude. "Melhor esperar mais um pouco" dizia ele. "Deixa ela se soltar, de repente quer curtir mais a festa". Mal sabia que a moça queria estar curtindo a festa desde que ele chegou.

O Adalberto notou algo diferente no Rodolfo e começou a conversar:

- E ai velho, qual que é? Parece que tá nervoso? E a gatinha que tu ia pegar?
- Tô cuidando cara... Tô só esperando a hora...
- Aham. Tá esperando acabar a festa pra dizer que não pegou porque ela foi embora.
- Capaz, nada a ver. Só vou deixar rolar. Vai que a mina...
- Vai que ela o que? Te de um fora? Isso é normal velho! Pior que isso é nunca tentar! Lembra que o medo é passageiro mas o arrependimento é pra sempre.

Realmente. É absolutamente normal ter medo. A coragem é quando optamos por agir mesmo com medo.

Com essas palavras e com o incentivo do amigo, Lá foi Rodolfo em busca da felicidade depois de longas horas de enrolação. Chegou no lugar e não encontrou mais ninguém. Alguém lhe entregou um bilhete que dizia: "Tava te esperando, mas meu pai veio me buscar. Amanhã nos mudamos para o Canadá. Quem sabe a gente se encontra".

Ele podia ficar com outra menina se quisesse mas sentiu que a noite tinha acabado. Na verdade a noite acabou no momento em que ele decidiu esperar. Haveriam outras festas, outras oportunidades, mas aquela ficou para trás com um nó na garganta.

Thiago Carvalho - 29/10/2010